A Espanha anunciou que fornecerá ajuda humanitária a Cuba por meio do sistema das Nações Unidas. O anúncio foi feito nesta segunda-feira pelo Ministério das Relações Exteriores espanhol após uma reunião, em Madrid, entre o chanceler José Manuel Albares e o ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez. Em breve comunicado, a chancelaria espanhola informou que a Espanha prestará ajuda “nas áreas de alimentação e produtos sanitários de primeira necessidade”. A nota não especifica prazos nem valores do apoio.
À beira do colapso: Sem petróleo da Venezuela, crise de Cuba se aprofunda e expõe fragilidades estruturais
Com bloqueio de petróleo imposto por Trump: Crise energética em Cuba derruba iluminação em até 50% nas grandes cidades
Cuba enfrenta uma gravíssima crise energética após o fim do fornecimento de petróleo por parte da Venezuela, na esteira da queda de Nicolás Maduro, e diante das ameaças de Washington de impor tarifas aos países que vendam petróleo à ilha. Impulsionado pelo sucesso da operação militar que capturou o venezuelano, o presidente dos EUA, Donald Trump, acredita que cortar o fornecimento de mais de 27 mil barris de petróleo por dia que Cuba recebia do regime chavista será o golpe final contra Havana. Sempre que é questionado sobre Cuba, ele diz:
— Parece que está prestes a cair.
As ações são um golpe brutal para um país que já enfrenta sua pior crise econômica desde a revolução de 1959 e lida com apagões, escassez de alimentos e medicamentos e a redução das reservas em moeda estrangeira. O governo comunista passou a aplicar um pacote de medidas emergenciais que restringe a venda de combustível e reduz o transporte público, ao mesmo tempo em que vê o declínio de sua influência sobre a esquerda global e governos aliados.
— A esquerda internacional não está sendo muito enfática. Veja o caso do Brasil, por exemplo. [O presidente Lula tem se limitado a condenar o bloqueio]. Tampouco o governo espanhol está dando uma resposta de alto perfil — disse o historiador cubano Rafael Rojas ao El País. — Há uma erosão da legitimidade de Cuba no cenário internacional devido à falta de democracia e à repressão sistemática, e esse chamado à solidariedade tem efeito muito limitado.
Apoio limitado
O especialista afirmou, ainda, que a rejeição ao bloqueio dos Estados Unidos não está se traduzindo em ajuda além da assistência humanitária — o que, avaliou, “não é suficiente para evitar um colapso”. Com o retorno de Trump, foi inaugurada uma nova ordem mundial na qual o multilateralismo e as organizações internacionais, incluindo a ONU, estão em retração. Nesse novo contexto, Cuba tem visto seu papel ser cada vez mais difuso e isolado.
Entenda: Cuba decreta medidas de emergência diante de crise energética
México, Chile e Rússia estão entre os poucos países que saíram em defesa de Havana, condenando publicamente a ofensiva de Trump. Ainda assim, Moscou prometeu ajuda financeira de maneira pouco convincente. E, embora a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, insista que tenta reativar o fluxo de petróleo, a verdade é que ele foi interrompido. Agora, os envios consistem somente em leite em pó e outros produtos básicos.
O Chile também denunciou o bloqueio e anunciou o envio de ajuda humanitária. Mas a pressão de Trump se intensifica por meio de países vizinhos: nesta semana, a Nicarágua, aliada de Cuba, concordou em fechar a principal rota de exilados cubanos, negando entrada a cidadãos da ilha em situação irregular. A Guatemala anunciou a retirada de todos os médicos cubanos que atuavam no país.
“A economia cubana atravessa provavelmente a pior crise de sua história, marcada por uma combinação de fatores internos e externos”, aponta um estudo da Embaixada da Suíça em Havana, que atua como mediadora entre Cuba e EUA. Trump sustenta que ofereceu um acordo e que os dois governos estão negociando. Havana reconhece apenas que houve alguns contatos sobre questões técnicas e nega que existam negociações sérias.
Sem dar mais detalhes, a nota do governo espanhol diz que a situação de Cuba após o endurecimento do embargo americano foi discutida. No X, o chanceler cubano escreveu: “Reiteramos a disposição de fortalecer o diálogo político, econômico-comercial e a cooperação em benefício de ambos os países, no complicado contexto internacional atual, diante das violações da Paz, da Segurança e do Direito Internacional e da crescente agressão dos Estados Unidos contra Cuba”. (Com AFP)