Contexto: Por Groenlândia, União Europeia avalia retaliar Trump com tarifas no valor de R$ 580 bilhões e impor ‘bazuca’
Análise: Pressão de Trump sobre aliados por Groenlândia coloca a Otan diante do cenário impensável de fogo amigo
— Acho que seria muito insensato — declarou Bessent à margem do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, acrescentando que Trump considera a Groenlândia como um “ativo estratégico”. — Não vamos externalizar nossa segurança hemisférica a ninguém.
Quando perguntado sobre a carta de Trump ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Store, na qual o presidente americano pareceu relacionar sua pressão sobre a Groenlândia ao fato de não ter ganhado o Prêmio Nobel da Paz, Bessent respondeu:
— Acredito que seja uma completa bobagem que o presidente vá fazer isto por causa do Prêmio Nobel.
Initial plugin text
Na carta, Trump escreveu que “o mundo não estará seguro a menos que tenhamos um controle total e completo sobre a Groenlândia”. O republicano não deixou de expor sua irritação por não ter recebido o Nobel no ano passado, que foi para a líder da oposição venezuelana, María Corina Machado. “Tendo em conta que o seu país decidiu não me dar o Prêmio Nobel da Paz por ter detido oito guerras ou mais, já não me sinto obrigado a pensar apenas na paz”, acrescentou o presidente.
No último sábado, Trump anunciou que a partir de 1º de fevereiro, Reino Unido, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Países Baixos, Noruega e Suécia estariam sujeitos a uma sobretaxa de 10% sobre todos os produtos enviados aos Estados Unidos até que a Dinamarca aceite ceder a Groenlândia. Todos os oito países enviaram tropas à ilha para reforçar a defesa após o presidente americano endurecer sua retórica.
Diante disso, os dirigentes da União Europeia vão se reunir na próxima quinta-feira, em Bruxelas, na Bélgica, em uma cúpula extraordinária para analisar a ameaça americana sobre a Groenlândia e a questão tarifária. Já nesta segunda-feira, o ministro da Defesa da Dinamarca, Troels Lund Poulsen, e a ministra das Relações Exteriores da Groenlândia, Vivian Motzfeldt, se reuniriam com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte.
Em comunicado, Poulsen declarou que medidas já haviam sido tomadas. “Os governos da Dinamarca e da Groenlândia, juntamente com vários aliados da Otan, decidiram aumentar a presença militar e as atividades de treinamento no Ártico e no Atlântico Norte”, declarou o ministro.
‘Chantagem’
Também nesta segunda, o vice-chanceler e ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil, destacou que a Europa prepara respostas às ameaças tarifárias de Trump, que qualificou de “chantagem” e provocaram a queda dos mercados de ações europeus.
Ele apresentou três vertentes de retaliação: o atual acordo tarifário com os Estados Unidos ficaria suspenso; as tarifas europeias sobre as importações provenientes dos EUA, atualmente suspensas até ao início de fevereiro, poderiam entrar em vigor; e a UE deveria considerar a possibilidade de utilizar seu conjunto de instrumentos para responder à “chantagem econômica” contra Washington.
Em carta à Noruega: Trump relaciona ambição pela Groenlândia à rejeição ao Nobel da Paz: ‘Não me sinto obrigado a pensar só na paz’
Já o chanceler alemão, Friedrich Merz, declarou que as tarifas não serão prejudiciais apenas para os europeus, mas também aos próprios americanos. Além disso, Merz afirmou que tentará “se reunir com Trump na quarta-feira” em Davos, para “evitar, na medida do possível, qualquer escalada” tarifária.
O chanceler alemão Friedrich Merz discursa em coletiva de imprensa após a reunião do Conselho Europeu em Bruxelas
John Thys/AFP
— Queremos simplesmente tentar resolver este problema juntos, e o governo americano sabe que também poderíamos reagir da nossa parte — afirmou o chanceler.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, também apelou ao diálogo, ressaltando que “uma guerra comercial não beneficia ninguém”.
— As alianças perduram porque são construídas sobre respeito e cooperação, não sobre pressão — afirmou Starmer em uma coletiva de imprensa nesta segunda-feira. — Usar tarifas contra aliados é um erro total.
O premier ainda disse estar determinado a “trabalhar com nossos aliados na Europa e com os Estados Unidos” e a “manter o diálogo”.
— [A crise] pode e deve ser resolvida por meio de uma discussão serena — disse o premier, acrescentando que os EUA têm servido bem ao Reino Unido “há mais de 80 anos”, e “não é o momento de escolher entre uns ou outros”.
Initial plugin text
Por sua vez, o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, avisou que a pressão com as tarifas “não mudará” a oposição groenlandesa às pretensões de Trump.
— Não vamos deixar que nos pressionem — enfatizou.
O ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, afirmou que não enviar um sinal forte em resposta a Trump seria demonstrar fraqueza perante os EUA. O chanceler participou da primeira rodada de negociações sobre a Groenlândia na última quarta-feira, na Casa Branca, com o vice-presidente americano, JD Vance. Na ocasião, saíram com um esperado “desacordo fundamental”, mas decidiram criar um “grupo de trabalho de alto nível” para seguir com a via diplomática.
Lars Loekke Rasmussen, chanceler da Dinamarca, responde às perguntas dos jornalistas em Copenhague
Liselotte Sabroe / Ritzau Scanpix / AFP
— É importante que todos nós que acreditamos no direito internacional nos manifestemos para mostrar a Trump que não se pode continuar por esse caminho — afirmou Rasmussen.
Em contraponto, Peter Szijjarto, ministro das Relações Exteriores da Hungria, afirmou nesta segunda-feira que a Groenlândia não é uma questão da UE, sinalizando que seu país não apoiaria uma declaração conjunta.
— Consideramos isso uma questão bilateral que pode ser resolvida por meio de negociações entre as duas partes. — disse o ministro do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, aliado de longa data do governo Trump.
Retaliação da UE
A França pediu ao bloco que retalie com o chamado instrumento anticoerção (ACI, na sigla em inglês, apelidado de “bazuca” comercial da Europa), que nunca foi aplicado desde sua adoção, em 2023. A medida inclui restrições de investimentos e pode limitar o acesso de companhias americanas ao mercado do bloco europeu, incluindo grandes empresas de tecnologia ou outros prestadores de serviços que realizam grandes volumes de negócios no continente.
As medidas de retaliação estão sendo desenhadas para dar aos líderes europeus capacidade de barganha durante encontros com o presidente americano no Fórum Econômico Mundial em Davos, entre hoje e sexta-feira, disseram ao jornal britânico Financial Times funcionários envolvidos nos preparativos. Como o uso das medidas aumentaria drasticamente as tensões transatlânticas, os líderes europeus ainda esperam conseguir chegar a um acordo.
Escalada de tensão: Membros europeus da Otan ameaçados por Trump por Groenlândia prometem união perante ‘espiral perigosa’
— Precisamos baixar a temperatura — disse um diplomata sob condição de anonimato ao FT.
A expectativa é que Trump esteja em Davos entre quarta e quinta-feira e mantenha encontros com Von der Leyen e outras autoridades e participe de uma discussão sobre Ucrânia.
Autoridades e analistas argumentam cada vez mais que a Europa precisará responder com firmeza. Mas fazê-lo poderá ter um alto custo tanto para a economia do bloco quanto para sua segurança, visto que o continente continua fortemente dependente dos EUA para a segurança da Otan e para a guerra na Ucrânia.
— Ou travamos uma guerra comercial, ou estamos em uma guerra de verdade — disse Jacob Funk Kirkegaard, pesquisador sênior do Bruegel, um instituto de pesquisa em Bruxelas, capital da Bélgica, onde ocorreu ontem a reunião de embaixadores.
Em um comunicado conjunto emitido na tarde de ontem, os oito países que são alvo do ultimato de Trump reafirmaram apoio mútuo e declararam que a abordagem americana fragiliza a relação entre aliados. “As ameaças tarifárias minam as relações transatlânticas e correm o risco de provocar uma perigosa espiral descendente”, afirmou o comunicado. “Permaneceremos unidos (…). Estamos comprometidos com a defesa da nossa soberania”.
(Com AFP)








