O iraniano Erfan Soltani, de 26 anos, detido em janeiro em meio aos protestos antigovernamentais na República Islâmica, foi libertado sob fiança no último sábado, segundo informações de grupos de direitos humanos e da mídia estatal do Irã. O caso ganhou repercussão internacional após relatos de familiares e de autoridades americanas de que ele teria sido condenado à morte, versão negada pelo Judiciário do país.
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Soltani foi preso em 8 de janeiro em sua casa, na cidade de Fardis, a cerca de 40 quilômetros a oeste de Teerã, durante uma onda de manifestações que havia se espalhado pelo país desde dezembro, provocando uma repressão letal por parte das autoridades iranianas. De acordo com a emissora estatal IRIB, ele foi acusado de “reunião e conluio contra a segurança interna do país” e de realizar “atividades de propaganda” contra o regime.
Após a prisão, autoridades dos Estados Unidos e um parente de Soltani afirmaram que ele seria executado, o que levou o caso a ocupar espaço de destaque na imprensa. Familiares relatam que Soltani foi mantido incomunicável desde a prisão, sem acesso a advogado ou direito à defesa. Na época, um parente de Soltani disse à BBC Persian que um tribunal havia emitido uma sentença de morte “num processo extremamente rápido”, em apenas dois dias.
O Judiciário iraniano, no entanto, classificou essas informações como “notícias fabricadas”, ao mesmo tempo em que o presidente americano, Donald Trump, ameaçava tomar “medidas muito duras” caso as execuções fossem realizadas. O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, alertou que qualquer ataque provocaria um conflito regional. Posteriormente, parentes informaram que a execução havia sido adiada.
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A libertação sob fiança foi confirmada pelo grupo de direitos humanos Hengaw, com sede na Noruega, e pela Press TV, veículo estatal iraniano. Segundo relatos anteriores, Soltani chegou a se encontrar com a família e estava em boas condições físicas. À AFP, o advogado do jovem, Amir Mousakhani, disse que foi paga uma fiança de “dois bilhões de tomans” (cerca de R$ 66 mil). Depois disso, afirmou, ele recebeu todos os seus pertences, inclusive o celular.
Também nesta segunda-feira, a emissora estatal iraniana afirmou que quatro estrangeiros, cujas nacionalidades não foram especificadas, foram presos no Irã por “participação em distúrbios”. O veículo afirmou que as pessoas foram “presas durante uma operação” e que, “durante a busca na mochila de um dos suspeitos, foram encontradas quatro granadas de efeito moral caseiras, usadas durante os distúrbios e confrontos na região”.
Os casos ocorreram em meio a protestos de grande escala que se espalharam pelo Irã. A agência Human Rights Activists News Agency, com sede nos Estados Unidos, afirma ter confirmado a morte de mais de 6.300 pessoas desde o início das manifestações, no fim de dezembro, e investiga outros 17 mil óbitos relatados. Outro grupo, o Iran Human Rights (IHR), sediado na Noruega, advertiu que o número final de mortos pode ultrapassar 25 mil.
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Apesar de um bloqueio prolongado da internet no país dificultar o acesso a informações confiáveis sobre o cenário no país, testemunhas, ativistas de direitos humanos e profissionais de saúde relataram episódios de violência generalizada durante a repressão aos protestos. O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, reconheceu que milhares de iranianos morreram durante o período de instabilidade, mas atribuiu parte das mortes a declarações de Trump, que, segundo ele, incentivaram os manifestantes ao prometer “apoio militar” americano.
Enquanto os protestos avançavam, Trump incentivou os iranianos a manterem as manifestações e a “assumirem o controle” das instituições do país, assegurando que “a ajuda está a caminho”. No entanto, nenhuma ação militar ocorreu durante os protestos ou a repressão subsequente. Em vez disso, Trump agora avalia um grande ataque contra o Irã, após negociações para limitar o programa nuclear e a produção de mísseis balísticos do país não avançarem, segundo pessoas familiarizadas com o assunto ouvidas pela CNN.
Em uma publicação na Truth Social na quarta-feira, Trump exigiu que o Irã se sentasse à mesa de negociações para firmar “um acordo justo e equilibrado, sem armas nucleares”, advertindo que o próximo ataque americano ao país “será muito pior” do que o realizado no ano passado contra três instalações nucleares iranianas. Nesta segunda-feira, a República Islâmica anunciou que mediadores estão avançando com a definição de um formato para negociações diplomáticas.
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O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse no domingo estar “confiante de que podemos chegar a um acordo” com os Estados Unidos sobre o programa de armas de Teerã. O líder supremo iraniano, no entanto, adotou um tom desafiador, advertindo que um ataque americano enfrentaria forte retaliação. Falando para uma multidão na mesquita Imam Khomeini, em Teerã, Khamenei declarou:
— Os americanos devem saber que, se iniciarem uma guerra, desta vez será uma guerra regional.
Penas de morte
Embora o Irã esteja entre os países que mais executam no mundo — com mais de 2 mil execuções registradas apenas em 2025 —, especialistas destacam que, historicamente, os processos que resultam em pena de morte costumam levar anos até a sentença definitiva e sua execução.
Nos últimos três anos, ao menos 12 homens foram executados no Irã após receberem sentenças relacionadas aos protestos de 2022 conhecidos como “Mulher, Vida, Liberdade”. Na ocasião, a onda nacional de manifestações foi desencadeada pela morte sob custódia de Masha Amini, uma jovem curda acusada pela polícia da moralidade de usar o hijab de forma “imprópria”. Grupos de direitos humanos afirmam que a última execução do tipo ocorreu em 6 de setembro, quando Mehran Bahramian foi enforcado na prisão central de Isfahan.
Segundo o grupo Iran Human Rights, com sede na Noruega, autoridades torturaram Bahramian para obter confissões, e ele não recebeu um julgamento justo. A organização afirmou que ele foi condenado à morte em janeiro de 2024 sob a acusação de “inimizade contra Deus” por supostamente ter matado um membro da Guarda Revolucionária.
(Com AFP)