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No início do ano passado, muitos na China temiam que uma guerra comercial com o presidente Donald Trump pudesse ser o maior desafio para a economia. No entanto, o superávit comercial total da China aumentou no ano passado, enquanto o verdadeiro problema para Pequim acabou sendo o colapso do mercado imobiliário, que começou há quatro anos e vem se agravando a cada mês.
Apesar de todos os problemas econômicos desencadeados pelo colapso lento do mercado imobiliário do país, os estatísticos chineses continuam a divulgar um crescimento econômico previsivelmente estável, impulsionado por um bom volume das exportações que resultou em um superávit comercial recorde de US$ 1,19 trilhão em 2025.
Nesta segunda-feira, o Escritório Nacional de Estatísticas informou que a economia chinesa cresceu 5% no ano passado, exatamente o mesmo ritmo do ano anterior. A taxa oficial de crescimento atingiu a meta do governo, definida em março, pelo segundo ano consecutivo.
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A economia chinesa cresceu 4,5%, de outubro a dezembro do ano passado, a um ritmo que, se mantido por um ano inteiro, representaria uma taxa de crescimento de 4,9%.
Com a queda nos valores dos imóveis, milhões de famílias reduziram seus gastos
The New York Times
As exportações robustas estão compensando o fraco nível de gastos tanto das famílias urbanas quanto das rurais. Em novembro, as vendas no varejo mal cresceram em relação ao ano anterior, marcando o pior desempenho mensal do consumo desde a pandemia de Covid-19. Em dezembro, então, as vendas no varejo caíram 0,1%, mesmo em relação ao fraco resultado de novembro.
Avaliações mais pessimistas
Alguns economistas ocidentais agora afirmam que o crescimento real da economia pode ser apenas metade do que indicam as estatísticas oficiais. O Rhodium Group, uma empresa de pesquisa sediada em Nova York e especializada na China, estima que a economia do país tenha crescido entre 2,5% e 3% no ano passado e que desacelere ainda mais neste ano.
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Mas autoridades chinesas apresentaram avaliações otimistas da economia como parte de um esforço mais amplo para elevar a confiança dos consumidores, que, segundo pesquisas governamentais, está muito fraca.
— De modo geral, a economia nacional manteve o impulso de um progresso constante em 2025, apesar de múltiplas pressões — disse Kang Yi, diretor do escritório nacional de estatísticas, em uma coletiva de imprensa para anunciar o desempenho da economia.
A construção civil e outras atividades imobiliárias representaram cerca de um quarto da economia chinesa até 2021. Assim, a forte desaceleração do setor prejudicou famílias e indústrias em todo o país.
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O investimento em novos conjuntos de apartamentos, torres de escritórios, fábricas e outros ativos fixos caiu 3,8% no ano passado, informou o órgão de estatísticas. Foi o primeiro recuo desde 1989, quando o governo conteve os investimentos em meio a pressões inflacionárias que contribuíram para os grandes protestos da Praça da Paz Celestial naquele ano.
“A forte queda do setor imobiliário pode explicar quase inteiramente o desempenho econômico fraco dos últimos três anos”, escreveu Zhu Tian, professor de economia da China Europe International Business School, em Xangai, em uma análise publicada em novembro.
A retração também gerou arrependimento entre compradores. Zoe Zhao, uma servidora pública de 27 anos em Xi’an, cidade do centro da China, comprou uma casa com os pais em outubro de 2024, depois que os preços haviam despencado, apenas para vê-los cair ainda mais.
— É difícil dizer que não me arrependo, mas pelo menos posso me consolar dizendo que este apartamento é para eu morar — disse ela. — Ainda bem que não compramos no auge.
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Queda acentuada de preços
Dados oficiais mostram que os preços caíram um quinto desde 2021 — aproximadamente o mesmo que a queda média nacional nos Estados Unidos durante o colapso do mercado imobiliário entre 2008 e 2010. Dados não oficiais, porém, indicam que as quedas de preços na China são pelo menos o dobro disso.
Dados oficiais mostram que os preços dos imóveis caíram cerca de 20% desde 2021
Gilles Sabrié/The New York Times
O número de transações estagnou, especialmente no caso de apartamentos novos. Um relatório do mês passado da China Index Academy, uma empresa de pesquisa imobiliária, afirmou que os imóveis colocados à venda agora permanecem no mercado por uma média de 22,2 meses antes da conclusão do negócio.
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Descontos de até 80%
Os compradores vêm exigindo descontos de até 80% em relação ao pico do mercado em 2021. Os vendedores têm resistido a aceitar perdas tão grandes, fazendo com que o mercado de apartamentos congele em muitas cidades.
Sam Radwan, diretor executivo da Enhance International, uma consultoria imobiliária sediada em Chicago, disse que em 45 anos acompanhando mercados imobiliários em mais de duas dezenas de países, nunca havia visto imóveis permanecerem sem venda por tanto tempo quanto agora na China. Em suas viagens recentes pelo país, afirmou que os profissionais do setor continuam extremamente pessimistas.
—Você conversa com todo mundo, e eles sabem que não há solução. Isso não vai desaparecer na próxima década — afirmou Radwan.
O colapso dos preços abalou a confiança no setor imobiliário, antes considerado o lugar mais seguro para aplicar a poupança das famílias. Agora, os líderes chineses buscam restaurar a fé no mercado.
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As autoridades governamentais começaram a censurar fortemente, no fim do ano passado, postagens pessimistas na internet sobre os mercados imobiliários de Pequim e Xangai. A divulgação pública dos mais conhecidos índices de preços de apartamentos do setor privado também foi suspensa.
Alguns especialistas chineses em mercado imobiliário defendem que uma melhora pode ocorrer já neste ano. Meng Xiaosu, um analista popular na China apelidado de “padrinho do setor imobiliário”, previu em comentários recentes publicados on-line que os preços começariam a se recuperar neste ano.
— Se medidas organizadas pelo governo central — como converter a compra de imóveis existentes em habitação acessível — puderem ser implementadas em determinadas regiões, isso também sinalizaria estabilização — disse ele.
Meng há muito tempo atua como entusiasta do mercado imobiliário e, em 2016, afirmou: “Ele nunca caiu sequer em um ano — como poderia ser uma bolha?”
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Governos locais têm tentado adquirir apartamentos não vendidos de incorporadoras em dificuldade para transformá-los em moradia acessível. Mas a queda da arrecadação de impostos e das vendas de terrenos significa que os governos locais não têm recursos para subsidiar essas transações.
Sem grandes reduções de preço — algo que as incorporadoras relutam em fazer —, os governos locais terão prejuízos elevados ao alugar os apartamentos, disse Radwan.
Por trás dos problemas do mercado imobiliário está uma enorme oferta de moradias recém-construídas, combinada com a queda no número de casamentos e nascimentos a cada ano, o que reduziu o impulso para a compra de novas casas.
Em 2024, a China tinha cerca de 440 pés quadrados (37 metros quadrados) de moradia para cada homem, mulher ou criança que vive nas cidades, acima dos 340 pés quadrados (31,5 metros quadrados) de apenas 15 anos antes. Antes da morte de Mao Tsé-tung, em 1976, esse número era inferior a 100 pés quadrados (9,2 metros quadrados) por pessoa.
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