Na Praça do Ciclista, na esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação, há uma estátua de Francisco Miranda (1750-1816), militar venezuelano que lutou ao lado de Simón Bolívar contra o domínio espanhol. Mais tarde, foi preso a mando do próprio Bolívar, acusado de traição. Foi ali, aos pés da estátua do “primeiro venezuelano universal”, como Miranda é conhecido, que seus compatriotas residentes em São Paulo decidiram comemorar a queda de Nicolás Maduro, líder do chavismo, movimento político que reivindica o legado de Bolívar.
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Neste sábado (3), Maduro foi deposto por forças americanas e levado para Nova York, onde será julgado por narcotráfico e terrorismo. O presidente americano Donald Trump anunciou que os Estado Unidos vão governar interinamente a Venezuela e controlar a produção petrolífera do país.
Convocado pela Associação Brasileira de Amigos para a Venezuela, o ato começou por volta das 15h e reuniu algumas dezenas de pessoas. À primeira vista, parecia uma manifestação da direita brasileira: homens e mulheres de verde e amarelo, com camisas da seleção brasileira, empunhavam bandeiras do Brasil e dos EUA (e até uma da Ucrânia). A expressão “Bolsonaro livre” se repetia aqui e ali. Cerca de metade do público era venezuelano. Ao GLOBO, alguns deles disseram experimentar uma mistura de alegria e apreensão quanto ao futuro de seu país. Também relataram incômodo com a instrumentalização política do drama venezuelano levada a cabo tanto pela direita quanto pela esquerda brasileiras.
— Ambas as partes se apropriam da dor dos venezuelanos por oportunismo político. O que aconteceu na Venezuela não tem nada a ver com a prisão de Bolsonaro — afirma o advogado Renzo Moreno, que vive há oito anos no Brasil com a mãe.
Os venezuelanos Tati e Renzo Moreno comemoram a queda de Maduro em SP
Ruan de Sousa Gabriel
Moreno fugiu da Venezuela quando soube que havia uma ordem de prisão em seu nome. Ele era uma das lideranças da ala jovem do partido de María Corina Machado, líder da oposição ao chavismo, e entrou na mira do governo de Maduro. Saiu da Venezuela pela fronteira com a Colômbia e chegou ao Brasil com 20 anos. Ele e a mãe passaram a madrugada de sábado conversando com parentes que ainda vivem na Venezuela, perto de um dos aeroportos atingidos por bombas americanas. Dava para ouvir as explosões pelo telefone, diz ele.
— Estamos vivendo uma felicidade angustiada — afirma o rapaz, que espera que haja um governo de transição que reúna todas as forças políticas do país, do chavismo à oposição. — Houve sim um atentado à soberania da Venezuela, uma violação das leis internacionais. Ao mesmo tempo, o que tínhamos na Venezuela era uma ditadura que causava sofrimento ao povo. É como se diz: siga sempre o direito, mas quando o direito e a justiça divergirem, siga a justiça. O povo da Venezuela merece esperança, liberdade e democracia. Isso é o principal.
Moreno acrescenta que, neste momento, o povo venezuelano “não está preocupado com quem vai explorar o petróleo”.
— O nosso petróleo estava nas mãos do governo e dos russos e o povo passava fome. Quando eram os EUA quem exploravam o petróleo venezuelano, tínhamos comida na mesa.
País em transição
Carla Ramos era advogada na Venezuela e agora trabalha com marketing em São Paulo, onde vive com a mãe, Isabel Urrea, que é aposentada. Para Carla, o que aconteceu neste sábado não foi uma invasão estrangeira ou um atentado à soberania venezuelana.
— Foi a extradição de um ditador narcoterrorista. Agora, o país entra em transição — afirma.
Carla e Isabel migraram para o Brasil devido à crise política e econômica em seu país.
— Muita inflação, poder aquisitivo baixo, salários que não davam, não havia como viver — conta Isabel. — Agora, estamos felizes, temos esperança e fé em Deus que tudo vai melhorar, que serão implementadas políticas que vão terminar com a tirania e dar oportunidades ao povo.
Isabel espera que, após a transição capitaneada pelos EUA, a Venezuela seja governada pela chapa que disputou as eleições com Maduro no ano passado: Edmundo González e María Corina Machado. Devido às suspeitas de fraude, a reeleição de Maduro não foi reconhecida por boa parte da comunidade internacional (o Brasil incluso). Trump, porém, disse numa coletiva de imprensa que descarta passar o poder para Machado, que venceu o Prêmio Nobel da Paz em outubro passado. “Ela não conta com apoio nem respeito dentro de seu país”, disse o americano.
O venezuelano Jorge Modernell com a mãe, Marisa Guerra e a esposa, Camila Agostinho
Ruan de Sousa Gabriel
Jorge Modernell vive no Brasil desde 2008. Sem perspectivas econômicas, saiu da Venezuela aos 26 anos para fazer um intercâmbio universitário e tentar a vida por aqui. Hoje, trabalha com análise de dados.
— Eu não via futuro na Venezuela. Era uma época de crise, de muita influência de (Hugo) Chávez na economia, muita pressão sobre o setor privado — conta ele, cujo irmão também deixou o país em busca de oportunidades econômicas e hoje vive nos EUA. — O chavismo sequestrou o futuro e a esperança de uma geração de venezuelanos. Já não havia vida possível. Agora, estamos otimistas, temos esperança de alguma normalidade. Mas há incertezas, porque Maduro nunca foi o cabeça do movimento chavista. Quem toma as decisões são os militares e os cubanos e a estrutura do governo continua a mesma. Trump está negociando com Delcy Rodríguez. Não acho que muita coisa vai mudar do dia para a noite.
Por volta das 16h, houve discursos de dois ativistas venezuelanos radicados no Brasil: Roderick Navarro e Carlos José León, que criticaram duramente o apoio de parcelas da esquerda brasileira ao chavismo. Padre Kelmon, um dos candidatos da extrema direita na eleição presidencial de 2022, também falou. Atacou políticos que acusaram a violação da soberania venezuelana, como o deputado Aécio Neves (PSDB-MG) e o governador gaúcho Eduardo Leite (PSD). Também disse esperar que a queda de Maduro seja “o início de uma faxina ideológica para devolver a esquerda para o lugar dela, o inferno”, e convocou os presentes para rezar um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
No fim do ato, os venezuelanos cantaram seu Hino Nacional e foram convidados a sair em passeata até o Masp — mas pela calçada, por orientação da Polícia Militar.